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EMENTA: UMA SÍNTESE HISTÓRICA DO PROCESSO DA INDIVIDUAÇÃO E DA ESTÉTICA MODERNAS

Este curso observa a historiografia da arte e da cultura, dando especial relevo à propositura da história social da arte apresentada pelo historiador húngaro Arnold Hauser (1892-1978), que contrapõe e debate as visões históricas de outros célebres historiadores da arte, como as dos suíços Jacob Burckhardt (1818-1897) e Heinrich Wölfflin (1864-1945), consagrados debatedores da Renascença e do Barroco; e a do maior representante da Escola de Viena, Aloïs Riegl (1858-1905).

Individuação – o processo pelo qual o indivíduo se torna cada vez mais autônomo em relação às ações do gênero – e estética consubstanciam unidade pela primeira vez na história da arte a partir do Renascimento. Partindo da concepção de Agnes Heller (1929-), em O Homem do Renascimento, segundo a qual a consciência de que o homem é um ser histórico é um produto do desenvolvimento burguês, pode-se dizer que o surgimento da individualidade artística é um produto da História Moderna. O exemplo de como as utopias do Renascimento simbolizavam àquela altura um passo progressista nas concepções de liberdade social deixa patente que o desenvolvimento humano-genérico é um processo acumulativo. Esta é a razão pela qual este curso tem como tema central o estudo da história social da arte e da literatura com seus desdobramentos estéticos partindo do desenvolvimento do homem burguês na Europa.

O momento transitório da arte românica e bizantina para o gótico tem uma inflexão importante com o naturalismo do Trecento, especialmente com Giotto di Bondone (1267-1337). Pode-se dizer acerca de uma longa e progressiva jornada do naturalismo, que será a tônica das pinturas no Renascimento Flamengo e em todo o Quattrocento. Este também é o momento em que, simultâneo ao naturalismo na arte eclesiástica, surge a mais substantiva arte secular a chegar preservada aos nossos dias. Exemplos abundam, como se nota de Antonio Pisanello (1395-1455) a Domenico Ghirlandaio (1449-1494). Jan van Eyck (c. 1390-1441), a quem Giorgio Vasari (1511-1574) atribuiu a invenção da tinta a óleo, é um exímio retratista, inaugurador da pintura de retrato de corpo inteiro e de interiores; notado por Hegel (1770-1831) como o primeiro grande naturalista a representar os animais. Hauser também nota que as principais novidades estéticas em relação à espacialidade pictórica ocorrem por responsabilidade de Jan van Eyck e da escola flamenga do Renascimento.

A arte do último Quattrocento se converte num grande estudo científico da natureza. E é assim que o naturalismo pode ser descrito: a pintura se torna uma concepção científica. O fenômeno do classicismo da Alta Renascença a partir das traduções feitas por Masílio Ficino (1433-1499) da obra de Platão e dos neoplatônicos dá origem a uma concepção artística que visa a luta deliberada contra toda a escola medieval antecessora. Juntamente com Pico della Mirandola (1463-1494), com Angelo Poliziano (1454-1494) e com Maquiavel (1469-1527), Ficino comporá o grande sistema filosófico do Renascimento – cujos patronos, a Casa Medici, controlam desde a República Florentina ao Vaticano, numa modernização eclesiástica: com Julio II, Roma passa de oito para 125 pintores residentes na Academia de São Lucas, seguindo a maniera grande que, até aquela altura, tinha como característica a estética da kalokagathia, a representação do belo e virtuoso, uma atitude idealista puramente contemplativa diante do mundo, e, como toda filosofia que se apoia em ideias puras como únicos princípios terminantemente válidos, implicava uma renúncia às coisas da “realidade comum”.

O Renascimento Florentino produziu artes não-populares e destinadas ao círculo humanista neoplatônico, à intelligentsia latina, de sorte que as massas jamais tomaram consciência da existência destas obras. Rafael (1483-1520) consubstanciará o grande espírito artístico do seu tempo. Assim como a primeira fase de Michelangelo e parte importante da vida de Leonardo (1452-1519) – este último não se vincula diretamente com o neoplatonismo, motivo pelo qual Lorenzo, o Magnífico (1440-1492), pode abrir mão de Leonardo, que parte para Milão. Essa também é a fase que marca o início da independência do artista em relação à guilda, o que gerará uma ruptura em relação ao estatuto social do artista. Não é sem motivos que o Renascimento será a era das biografias, expressa no fato de que Filippo Bruneleschi (1377-1446) é possivelmente o primeiro artista a ter sua vida escrita por um contemporâneo – momento em que a distinção se limitava a príncipes, heróis ou hagiografias. Le Vite de Vasari, cuja primeira edição é de 1550, é outro monumento de representação biográfica de pintores, e, também nesta ocasião, a demonstração de uma nova forma estatutária social artística, cuja demarcação do primeiro grande artista moderno pela forma e autonomia artísticas recai sobre Michelangelo (1475-1564).

As mortes de Rafael e de Leonardo, o Saque de Roma de 1527 – quando Carlos V de Habsburgo faz do Vaticano um quartel general, derrotando a Liga Clementina –, bem como as cismas religiosas desta geração são responsáveis pelo esgotamento do classicismo. Para Hauser, a ideia de que a arte do Renascimento é universal não pode fazer mais sentido do que dizer que toda universalidade artística é tão condicionada pelo tempo, tão limitada e transitória, com suas próprias normas de valor e seus critérios de beleza, quanto a arte de qualquer outro período histórico. O classicismo é produto histórico de duas décadas, apenas – e sua esfera de influências fora enorme, de modo que o mundo contemporâneo construiu sua Weltanschauung acerca do Renascimento a partir das posições iluministas do século XVIII sobre o Classicismo da Alta Renascença. A brevidade deste período classicista, contudo, é a brevidade típica de todos os movimentos que tentaram um classicismo em épocas modernas: não passam de episódios efêmeros, de transplantes de realidades exógenas para um momento ulterior muito mais dinâmico.

Esta longa jornada do naturalismo é interrompida pelo maneirismo, um movimento internacional, que se manifesta primeiramente na Europa setentrional mas não tarda a ter sua chegada à Itália. A princípio, a maniera grande, terminologia que acabou sendo utilizada por Vasari e Ascanio Condivi (1525-1574)para destacar o movimento artístico, é uma referência ao modo como Michelangelo entre 1536 e 1541 caracterizou todas as formas anatômicas possíveis em seu Juízo Final. Mas com a restauração da cavalaria e da Inquisição, sobretudo com Paulo III, propulsor do Concílio de Trento (1545-1563), o decoro passará a repudiar tanto os nus como as formas distorcidas típicas da intensa sensualística maneirista. Razão pela qual o historiador da arte Giovanni Bellori (1613-1696) classifica o maneirismo como um movimento de decadência moral e artística, noutras palavras, um movimento amaneirado, afetado. Podemos dizer seguramente que o maneirismo é uma redescoberta de Hauser, que pôde recompor a cena histórica do maneirismo como um movimento intelectualizado e consciente, sendo o primeiro movimento artístico totalmente moderno – a partir da concepção de Riegl, segundo a qual a arte começa totalmente objetiva, uma representação que em si contém um microcosmo, para se transformar em uma expressão da subjetividade (vale notar que a ideia também é desenvolvida atualmente por Luc Ferry (1951-) na filosofia).

A heterogeneidade do maneirismo não é razão para a indefinição estilística do maneirismo, pois a sua marca é a decomposição consciente do naturalismo. Na Itália, a sua forma está vinculada a parte da obra do último Michelangelo e à sequência artística de Ticiano (1488-1576), Tintoretto (1518-1594) e El Greco (1541-1614). Na Europa setentrional, onde não existiu a arte neoplatônica, seus exemplos são numerosos, passando de Quentin Matsys (1466-1530) e Pieter Bruegel, o velho (c. 1525- 1569), às figurações do neogótico de Bosch (c. 1450-1516), entre outros. Pode-se dizer de uma estética literária maneirista, que surge com Lazarilho de Tormes e se desenvolve com o nascimento do gênero do romance, cuja maior expressão é Miguel de Cervantes (1547-1616). O maneirismo é um movimento que perdura em torno de duas gerações artísticas, especialmente porque após o Concílio de Trento, a Igreja passa a arbitrar os motivos estilísticos, dando origem ao primeiro movimento moderno de propaganda artística: o barroco.

No Barroco teremos a imposição da arte como assunto teológico. Exemplos não faltam, da censura do Juízo Final de Michelangelo, que só não fora destruído por Clemente VIII – ou antes mesmo por Paulo IV – graças a uma petição enviada ao Vaticano remetida pela Academia de São Lucas; à condenação de Paolo Veronese (1528-1588) no Tribunal do Santo Ofício por ter adicionado em seu Ceia na casa de Levi uma série de motivos arbitrários à narração bíblica. Mas é também no barroco que surge o naturalismo realista de Caravaggio (1571-1610), cuja representação artística atinge um virtuosismo jamais observado até então. Seu intenso naturalismo popular, contudo, não foi bem observado pelo decoro, mas deixou uma gama de seguidores, incluindo a pintora Artemisia Gentileschi (1593-1656). A marca evidente do barroco é o regresso ao naturalismo; não obstante, tal regresso não implicou o retorno ao ideal estético matemático e sem expressão dramática da Renascença, mas a forma agregada do intenso sensualismo estético do maneirismo. Neste movimento temos Rubens (1577-1640) e Velázquez (1599-1660).

A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e as lutas de independência holandesa, conflitos ligados à Reforma Protestante; a violência persecutória de Filipe II; e a situação marítima privilegiada de Amsterdã fazem surgir um barroco secular idiossincrático na Holanda: desenvolve-se numa forma de virtuosismo técnico impressionante, porém sem mecenato religioso, fazendo com que os artistas estejam jogados livremente às suas próprias sortes no mercado. A própria forma da pintura é alterada, surgindo a pintura íntima de cavalete em substituição às grandes telas do período palaciano ou aos afrescos nas igrejas. E o motivo disso é evidente: a chegada do capital, que altera a lógica da pintura, criando um mercado de artes para as camadas populares. Todos os pintores passam a ser dependentes de um marchand, figura de mediação entre o pintor e o comitente que modifica o estatuto social do artista, subsumindo-os doravante à lógica do capital, uma das características da arte moderna que perdura aos nossos tempos. É sintomático que este processo simultâneo da chegada do capital na Holanda e do depauperamento das guildas, que continuam a existir sem cumprir função orgânica no conjunto artístico, levará ao colapso financeiro e à proletarização dos maiores nomes da pintura da Era de Ouro Holandesa, sem poupar Rembrandt (1606-1669), Judith Leyster (1609-1660), Hobbema (1638-1709), Jan Steen (1626-1679), Vermeer (1632-1675) e Frans Hals (c. 1580-1666). Note-se que muitos deles não tinham a pintura como sua profissão de sustento, mas como uma segunda ocupação. O caso de Rembrandt é ainda mais emblemático por ser o primeiro grande artista a ser rejeitado por causa do mercado artístico que começa a dar uma guinada a um academicismo classicista, resultado da modificação do gosto imposta pelo Absolutismo. Claudio Civilis, obra composta para o paço de Amsterdã, é a marca mais explícita deste processo.

O Absolutismo impõe um entrave à livre criação artística, com o monopólio da instrução, e exige uma rigorosa uniformidade da representação como princípio formal nos estilos pictóricos, de tal modo que a arte entra em sua fase das pinturas heróicas como produto das limitações impostas pelo processo francês da Academia Real – especialmente com Charles Le Brun (1619-1690) –, que atinge também Roma, e, de algum modo, todo o centro das grandes artes. Na contracorrente, a arte se apresenta nas determinações domésticas do Rococó, uma arte decorativa sem a pretensão de causar intensa comoção, como se vê nas pinturas de François Boucher (1703-1770) e Jean Baptiste Greuze (1725-1805), agregando alguns pintores no estilo fête galante.

O neoclassicismo de Jacques Louis David (1748-1825) compõe um movimento revolucionário, diferentemente do conservadorismo que sempre qualificou as correntes classicistas. David funda a mais importante escola artística desde Rafael, e seu classicismo inspirado em Vien (1716-1809) não é meramente formal, o classicismo de moda por causa da era das grandes escavações arqueológicas, como o deste último: é um classicismo militante político que faz a reivindicação da República na figura de seu pai romano. Tal situação marca a última fase artística de uma burguesia progressista e revolucionária.

Eugène Delacroix (1798-1863) é o primeiro grande representante da pintura romântica e um dos responsáveis por suplantá-la pelo realismo revolucionário, já representando inteiramente o homem do século XIX, enquanto o romantismo é essencialmente um movimento do espírito do século XVIII. William Turner (1775-1851) e Goya (1746-1828) são, em partes, românticos, especialmente em referência ao simbolismo das cores; contudo, extrapolam a visão romântica de mundo, sendo transgressores em seu tempo; Turner, por sua vez, pode ser considerado um autêntico inaugurador da pintura de vanguarda. Esta é a característica que debuta uma crítica introspectiva da modernidade, aliás, como apresenta György Lukács (1885-1971), uma desilusão dos indivíduos frente à modernidade, que pode ser expressa mais diretamente como a inadequação que nasce do fato de a alma ser mais ampla e mais vasta que os destinos que a vida moderna são capazes de oferecer. A apresentação do modernismo em Goethe (1749-1832) como um processo burguês de desenvolvimentismo de vanguarda, presente na análise de Marshall Berman (1940-2013), encerra a análise da arte deste período, tendo em Fausto o último grande poema dos tempos modernos.

 

 


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